Monthly Archives: maio 2018

Programação – II Encontro Regional 2018

Leia a programação do Segundo Encontro Regional de 2018 – Clique no botão para visualizar pdf-word

17/05/18|

Programa discute Educação Infantil na Base Nacional Comum Curricular

O que diz a Base Nacional Comum Curricular no âmbito da Educação Infantil e como as suas concepções podem ser articuladas com o Projeto Político Pedagógico e as práticas educativas nas escolas? A questão foi discutida, no âmbito do Programa Primeiro a Infância – Educação Infantil como Prioridade, com gestoras, coordenadoras pedagógicas e professoras dos seis municípios parceiros em 2018.
 
As reflexões foram feitas em encontros nos dias 9 e 10 de abril, a partir de exposição de Monica Samia, pesquisadora da organização Avante, de Salvador (BA). Monica foi uma das responsáveis pela implantação e implementação, em vários municípios do Nordeste, do Projeto Paralapracá, desenvolvido pela Avante com o apoio do Instituto C&A.
 
Diretrizes Curriculares – Monica Samia lembrou que o processo de construção da BNCC teve seus antecedentes e, na esfera da Educação Infantil, um dos marcos principais foi o documento das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, de 2009. As concepções de criança e Educação Infantil presentes nas Diretrizes têm orientado as discussões sobre essas áreas, inclusive na formulação da BNCC, destacou a consultora da Avante.
 
Pelas Diretrizes, em seu artigo 4º, frisou, a criança é um “sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura”.
 
Já pelo artigo 3º, o currículo da Educação Infantil é concebido como “um conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade”.
 
Para Monica Samia, a BNCC, em termos da Educação Infantil, desdobra essas concepções de criança e currículo expressas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Ela nota que parte significativa da BNCC, no que se refere à Educação Infantil, tem como fundamento sobretudo os artigos 8º e 9º das Diretrizes de 2009.
 
O artigo 8º estabelece que “a proposta pedagógica das instituições de Educação Infantil deve ter como objetivo garantir à criança acesso a processos de apropriação, renovação e articulação de conhecimentos e aprendizagens de diferentes linguagens, assim como o direito à proteção, à saúde, à liberdade, à confiança, ao respeito, à dignidade, à brincadeira, à convivência e à interação com outras crianças” (com vários incisos e parágrafos a seguir).
 
Por sua vez o artigo 9º indica que “as práticas pedagógicas que compõem a proposta curricular da Educação Infantil devem ter como eixos norteadores as interações e a brincadeira, garantindo experiências que: I – promovam o conhecimento de si e do mundo por meio da ampliação de experiências sensoriais, expressivas, corporais que possibilitem movimentação ampla, expressão da individualidade e respeito pelos ritmos e desejos da criança; II – favoreçam a imersão das crianças nas diferentes linguagens e o progressivo domínio por elas de vários gêneros e formas de expressão: gestual, verbal, plástica, dramática e musical” (e mais 10 incisos na sequência).
 
Oportunidade histórica – Monica Samia lembrou que a construção da Base Nacional Comum Curricular contemplou um amplo processo participativo, sobretudo na formulação das suas duas primeiras versões. A terceira e última versão já foi divulgada pelo novo governo federal, com alterações em relação às duas primeiras, e depois discutida pelo Conselho Nacional de Educação e finalmente homologada.
 
Mesmo com as perdas em relação às propostas originais, ela entende que a BNCC representa, no âmbito da Educação Infantil, uma “oportunidade histórica para enfrentar desigualdades educacionais no que se refere ao acesso a bens culturais e à vivência da infância”. Ainda assim, alerta que há o risco de “potencializar lógicas com estruturas rígidas”.
 
Para ela, a concepção de Educação Infantil explicitada nas Diretrizes Curriculares e na BNCC rompe com os modelos de educação assistencialista e escolarizante e fundamenta um novo modelo, baseado na Lógica da Infância. A respeito, cita as caracterizações de modelos da Educação Infantil, apontadas por Lenira Haddad, pesquisadora e professora da Universidade Federal de Alagoas.
 
A lógica institucional, assinala, “é modelada por uma imagem da boa família e do lar”. A lógica da pré-escola, por sua vez, “sustenta-se pela racionalidade escolar de controle das práticas”. Nessa lógica, as metas e os objetivos estão voltados a uma relação formal de ensino-aprendizagem. O papel do profissional, acrescenta, é o do professor “que vê as crianças como aprendizes”. E a Lógica da Infância, de seu lado, coloca a criança no centro, ela é a protagonista, é considerada como um sujeito de direitos e não pode ser dividida, separada. Esta é a lógica da importância do brincar, do experimentar, como eixos do conhecimento.
 
Monica Samia salienta que, a partir dos princípios enunciados nas Diretrizes de 2009, a BNCC incorporou, na esfera da Educação Infantil, os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento, que devem nortear as práticas neste nível: Conhecer-se, Conviver, Brincar, Explorar, Participar e Expressar. São Direitos, acrescenta, estruturados em tornos dos eixos Ético, Político e Estético.
 
Para fazer valer os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento, e também tendo as Diretrizes como fundamento, a BNCC estabeleceu os Campos de Conhecimentos, que devem ser contemplados na Educação Infantil: O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; e Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.
 
Monica Samia concluiu suas apresentações nos municípios parceiros do Programa Primeiro a Infância propondo ser fundamental compreender as concepções e intencionalidades dos Direitos de Aprendizagem e Campos de Experiências previstos nas Diretrizes de 2009 e na BNCC de modo que sejam elaborados Projetos Político Pedagógicos (PPP) e planejadas práticas coerentes com os objetivos de aprendizagem e desenvolvimento. A formulação ou revisão dos PPP das unidades de Educação Infantil, de forma participativa, é o instrumento central do Programa Primeiro a Infância.
 
Em Monte Mor – O encontro de Monica Samia com diretoras de escola e coordenadoras pedagógicas de Monte Mor, além da equipe da Secretaria Municipal de Educação, foi no dia 9 de abril. “É uma ótima oportunidade reunir as diretoras e coordenadoras para discutir a Base Nacional e outros temas muito importantes”, afirmou a secretária municipal de Educação, Marli Eliza Brischi Domingues.
 
Diretora de escola no município, Alex-Sandra Pires Braga entende que o Programa Primeiro a Infância pode dar contribuição relevante na discussão do Projeto Político Pedagógico, de modo a envolver toda a comunidade e na discussão do currículo e práticas educativas.
 
Para a coordenadora pedagógica Natália Cassiano de Jesus, foi muito importante a discussão sobre a Base Nacional Comum Curricular, pois trouxe novos subsídios para a reflexão sobre a Educação Infantil no município.
 
 
 
 

14/05/18|

Contribuição do Programa Primeiro a Infância, no olhar de Camaragibe

A segunda e última mesa de debates do Seminário foi encerrada com o relato de uma experiência concreta, no marco do Programa Primeiro a Infância – Educação Infantil como Prioridade, do Fundo Juntos pela Educação. A coordenadora de Educação Infantil de Camaragibe, Edilma Luz, resumiu como foi a implementação do Programa em seu município. Também esteve presente o secretário municipal de Educação de Camaragibe, Denivaldo Freire Bastos.
 
Edilma Luz, lembrou que o Programa já contribuiu no momento em que estava sendo elaborado o Plano Municipal de Educação, no primeiro semestre de 2015. Em função das discussões propiciadas pelo Programa, lembrou, a Meta 1 do Plano Municipal, relacionada à Educação Infantil, foi desdobrada em sete metas e 33 estratégias específicas para creches e pré-escolas.
 
A representante de Camaragibe lembrou também que o Projeto Político Pedagógico (PPP) foi o instrumento escolhido para que cada unidade de Educação Infantil dos três municípios parceiros refletisse as metas e estratégias previstas em seus Planos Municipais de Educação.
 
O primeiro passo para viabilizar o processo, lembrou, foi a constituição de um Comitê Gestor Escolar, “construído em uma dinâmica entre membros da comunidade escolar, diretor, professores, funcionários, pais, sociedade civil, estudantes e crianças da Educação Infantil que tiveram sua fala representada pelo diretor da escola”.
 
Foi então iniciado um processo de construção ou revisão do PPP, com efetiva participação das comunidades escolares. “Em Camaragibe, houve uma escuta geral, inclusive das crianças e da comunidade em geral”, reiterou.
 
Ela observou que, naquele momento, foi sentida a importância de envolvimento de todas as modalidades de ensino, e não apenas a Educação Infantil. Dessa forma, o PPP foi reformulado considerando todos os níveis de ensino. “Muitas escolas têm a Educação Infantil com outros níveis. Não fazia sentido reformular o PPP apenas para a Educação Infantil”, ressaltou.
 
Cada PPP, notou Edilma Luz, contemplou um Plano de Ação com suas próprias metas. Os Planos de Ação das diferentes unidades escolares foram, depois, sintetizadas, para que as prioridades fossem contempladas no orçamento definido pelo Plano Plurianual do Município. “A reformulação do PPP permitiu que as comunidades valorizassem ainda mais a sua participação na educação de suas crianças. O Programa Primeiro a Infância fortaleceu na cidade a importância da Educação Infantil, como etapa primeira e fundamental do desenvolvimento”, frisou.
 
Edilma Luz informou que o envolvimento de Camaragibe no Programa Primeiro a Infância já teve outras consequências práticas. Uma delas foi a ampliação do acervo literário para todas as unidades de ensino. Do mesmo modo, vem sendo ampliado o acervo de brinquedos, com itens que antes não eram contemplados.
 
A representante de Camaragibe notou que em 2018 tem sido executado um monitoramento da implementação do PPP em cada unidade escolar, como foco no Plano de Ação montado para a escola.
 
Também participou da mesa Cida Freire, que atuou como consultora na implementação do Programa Primeiro a Infância nos três municípios pernambucanos. Ela ressaltou como o Programa procurou abrir efetivamente espaços à participação das comunidades escolares na construção ou reformulação do PPP.
 
O vice-diretor da Oficina Municipal, Gustavo Santos, fechou o seminário, reafirmando que o Programa Primeiro a Infância está no segundo ciclo, com ações ao longo de 2018 nos municípios de Capivari, Mombuca, Monte Mor, Rafard, Rio das Pedras e Saltinho, no interior de São Paulo.
 
 
 
 

14/05/18|

Direitos e Convenção da criança em debate na segunda mesa

No dia 20 de novembro de 1989, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou a Convenção sobre os Direitos da Criança, desde então a principal referência para as questões da infância. A exposição de Javier Rodriguez, da Fundação Arcor da Argentina, no Seminário Gestão Integral e Integralidade da Infância, teve a Convenção de 1989 como orientadora.
 
Javier falou sobre “Espaço, local, educação infantil e proteção dos direitos das crianças”. Ele lamentou inicialmente que muitas vezes ainda se veja a criança como “promessa”, como “futuro”, o que na sua opinião “distrai a atenção política e social do presente”.
 
Comentou, então, a definição de Primeira Infância expressa na Convenção dos Direitos da Criança, de 1989: “A Primeira Infância compreende o período pré-escolar até a transição para a educação básica. Em termos operacionais, é a fase desde o nascimento até os oito anos de idade”.
 
Espaço local – Sempre à luz da Convenção, Javier destacou a relevância de se tratar do local, do lugar de onde veio a criança, quando se busca uma abordagem integral para a infância. “De onde nós somos?”, indagou, para imediatamente responder: “Nós somos onde brincamos quando éramos crianças. Brincadeira e espaço compõem nossa identidade”.
 
Quando fala de espaço, explicou, “falamos do espaço habitado que simboliza o espaço social que, ao mesmo tempo, traduz a estrutura social”. E a estrutura social na América Latina, acrescentou, “é desigual, as crianças nascem e crescem nessa desigualdade”. É este o lugar, é este local, portanto, que deve ser considerado, quando se procura a gestão integral da infância.
 
A reavaliação do espaço local, continuou o representante da Fundação Arcor, “traz a possibilidade de reconstruir um modo de vida que retorna o comum, que restaura a comunidade”. Para ele, a comunidade local é uma rede relacional que combina: relações de produção e estrutura econômica, um quadro sócio-institucional que se reflete em características do Estado local, uma história e cultura próprias e uma inserção no sistema global e nacional. A construção de uma abordagem e de uma gestão integral da infância deve, nesse sentido, ter como referência essa rede de relações que caracteriza a comunidade onde a criança vive.
 
Direitos da criança – De novo em conformidade com a Convenção sobre os Direitos da Criança, Javier Rodriguez sublinhou que a concretização dos direitos da infância “é uma obrigação do Estado e responsabilidade da família e da comunidade”.
 
São três, na sua perspectiva, os planos de ação do Estado para garantir os direitos da infância: 1. Políticas públicas universais (contemplando as citadas áreas da educação, saúde, desenvolvimento social etc); 2. Medidas de proteção integral de direitos; e 3. Medidas excepcionais.
 
O mais importante, prosseguiu, é que deva ser construído um Sistema de Proteção de Direitos, o que pressupõe uma visão intersetorial. Assim, para que seja assegurado o desenvolvimento integral na Primeira Infância e, portanto, a Educação Infantil integral, disse Javier Rodríguez, é essencial uma abordagem e uma gestão intersetorial, envolvendo não apenas a área educacional, mas também a da saúde, da ação social e outras.
 
Ele defendeu, igualmente, a estruturação de Comitês Intersetoriais, para assegurar a articulação de ações voltadas à promoção e proteção dos direitos da criança. Tais Comitês, completou, devem contemplar a representação da família (considerando as múltiplas e novas configurações de família), os distintos setores e níveis do Estado e a comunidade como um todo, considerando as organizações e instituições da sociedade civil.
Direitos das crianças e educação – A Convenção sobre os Direitos da Criança, lembrou Javier Rodriguez, tem indicações significativas para uma Educação Infantil na perspectiva da integralidade. No caso, falando-se de educação “como um direito em si mesmo e como uma prática que garante outros direitos”. As políticas educativas e as práticas institucionais, complementou, “devem desenvolver os mecanismos necessários para assegurar a cada criança um efetivo processo de aprendizagem”.
 
Em seguida, apontou as referências contidas na Convenção sobre os Direitos da Criança que, na sua opinião, deveriam ser consideradas nas práticas pedagógicas na Educação Infantil: igualdade de gênero (Artigo 2), respeito à diversidade cultural (Artigo 30), fomento à participação (Artigo 12), liberdade de consciência, pensamento e religião (Artigo 14), sistemas disciplinares compatíveis com a dignidade humana (Artigo 28).
 
Javier Rodriguez entende que a educação voltada ao desenvolvimento integral é “aquela que desenvolve a capacidade e o desejo de aprender a aprender”. Além disso, é aquela que considera a criança “como um ser com potencial e parte de sua própria atividade para construir conhecimento”. A capacidade de aprender, acredita, “deve servir não só para adaptarmos, mas também sobre o todo para transformar a realidade”. Para cumprir sua função, completa, a educação “deve atender à vida da criança, já que dela extrai o material com que se desenvolve sua tarefa específica: construir experiências”. A educação deve “construir pontes de acesso ao mundo simbólico. Cumprir sua função política de socializar, distribuir conhecimentos”.
 
A política integral para a Primeira Infância, reiterou Javier, deve ser em síntese uma política intersetorial que permita (1) uma compreensão e abordagem abrangente da criança e seu universo de relacionamento; (2) seja feita não só na execução, mas também no planejamento e na tomada de decisões e (3) garanta a coordenação de atores e a sinergia de ações.
 
Javier Rodriguez terminou sua exposição com uma frase do educador italiano Francesco Tonucci (autor do célebre “A cidade das crianças”), para acentuar como é estratégica a centralidade da criança na agenda e nas políticas públicas: “Escolher as crianças como uma bússola para fazer política e executá-la garante que ela não apenas beneficie as próprias crianças, mas toda a comunidade”.
 
 
 
 

14/05/18|

Seminário em São Paulo discutiu Gestão Integral e Integralidade da Infância

Gestão Integral e Integralidade da Infância: Caminhos para a Educação Infantil. Este foi o tema de seminário realizado no dia 12 de abril, em São Paulo, pelo Fundo Juntos pela Educação, composto pelo Instituto Arcor Brasil e Instituto C&A. Participaram mais de 100 pessoas, entre educadores, gestores e pesquisadores em infância e educação infantil.
 
A organização do seminário, realizado no Espaço Transatlântico, esteve a cargo da Oficina Municipal, contratada pelo Fundo Juntos pela Educação para a implementação do Programa Primeiro a Infância – Educação Infantil como Prioridade.
 
Como acentuou na mesa de abertura o vice-diretor da Oficina, Gustavo Santos, o seminário foi pensado como um espaço de reflexão e discussão a partir das experiências acumuladas em três anos de execução do Programa Primeiro a Infância. Entre 2015 e 2017, o primeiro ciclo foi implementado nos municípios pernambucanos de Camaragibe, Cabo de Santo Agostinho e São Lourenço da Mata. Um segundo ciclo está em curso nos municípios paulistas de Capivari, Mombuca, Monte Mor, Rafard, Rio das Pedras e Saltinho, também com execução técnica pela Oficina Municipal.
 
Ainda na mesa de abertura, a coordenadora de projetos socioeducativos do Instituto Arcor, Milena Drigo Azal, destacou a importância que o Fundo Juntos pela Educação dá para as parcerias, em todos os níveis, como essenciais para garantir os direitos das crianças, incluindo o direito à educação.
 
O Instituto C&A foi representado por sua gerente de Educação, Patrícia Lacerda. Ela evidenciou como, na formulação do Programa Primeiro a Infância, foi considerada a importância de ser ouvido o território onde ele estivesse atuando, de modo a que fosse garantido o “senso de pertencimento”, a participação e a identificação local com os seus objetivos. Já o representante da Fundação Arcor, Javier Rodriguez, ressaltou que a infância representa o compromisso central e a premissa de trabalho da organização. Daí a participação da Fundação em vários programas e projetos, próprios e em parceria, visando colocar a infância no centro da agenda pública.
 
Direitos e concepção da infância – Na primeira mesa de debates, a fundadora e diretora da organização Avante, de Salvador (BA), Maria Thereza Marcílio, afirmou que a integralidade da infância começa a ser respeitada quando se considera que a criança é um sujeito de direitos, é uma cidadã desde a sua vinda ao mundo. “Se acreditamos que os direitos humanos são inerentes então as crianças têm direitos. Os direitos não são uma doação dos adultos para elas. Eles estão presentes desde o nascimento”, afirmou, citando a educadora Ellen Hall, fundadora da Boulder Journey School e recentemente falecida.
 
Maria Thereza Marcílio comentou que a Boulder Journey School tornou-se uma referência em inovação e abordagem integral na Educação Infantil, em função do trabalho de Ellen Hall e outras educadoras. A escola localizada no Colorado, nos Estados Unidos, foi uma das instituições citadas no documentário que Maria Thereza Marcilio exibiu logo no início de sua apresentação, para subsidiar a discussão.
 
O documentário “Voices of Children” (que será lançado em julho no Brasil) foi produzido por um conjunto de organizações e buscou verificar como as crianças são em várias partes do mundo: em Salvador e em uma aldeia indígena brasileira, na Índia, em Cingapura, na África e nos Estados Unidos, precisamente em Boulder. As crianças aparecem correndo, rolando no chão, brincando, geralmente brincando, gozando de sua infância e aprendendo. “Com toda a rica diversidade existente, as crianças são iguais em todo mundo. Elas têm uma enorme potência e elas querem brincar, se expressar de diversas maneiras, usar o seu corpo para explorar a vida”, comentou a fundadora da Avante, sintetizando o que seria o sentido de sua apresentação.
 
Para ela, de fato o conteúdo do documentário ilustra muito bem os princípios orientadores para uma Educação Infantil integral: equidade (a busca incessante pela redução das desigualdades, através da ampliação das oportunidades educativas), singularidades e brincadeiras (reconhecendo o brincar como principal forma de compreensão do mundo), cuidar e educar (dimensões complementares e indissociáveis da Educação Infantil), inclusão (que ela não restringe apenas à inclusão das pessoas com deficiência, mas de forma ampla), participação (reconhecer as crianças como protagonistas e que, portanto, devem ser sempre ouvidas, “pois elas têm muito a dizer”), articulação com o território (envolvimento da família e comunidade no processo educativo) e sustentabilidade (perceber-se parte de um todo e capaz de impactar no cotidiano de cada pessoa).
 
A fundadora da Avante defendeu, então, uma Educação Infantil “que colabore para a construção do olhar da criança sobre si e o mundo”. Ela entende que, todas as dificuldades e limitações, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) representa avanços na Educação Infantil, ao destacar os Direitos de Aprendizagem e Campos de Experiência. Lamentou, entretanto, que a fundamentação da Base, presente no início da sua discussão, tenha sido retirada da versão final, apresentada pelo Ministério da Educação, aprovada pelo Conselho Nacional de Educação e homologada pelo ministro.
Avanços e dilemas da BNCC – Na mesma mesa de debates, Janine Schultz, coordenadora do Programa de Educação Infantil do Instituto C&A, comentou justamente a Educação Infantil no contexto da Base Nacional Comum Curricular, que entrou recentemente em vigor. Ela lembrou que a construção da BNCC foi caracterizada por um processo envolvendo vários marcos legais, desde a Constituição de 1988 até a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, de 1996, e o Plano Nacional de Educação, de 2014.
 
O fundamental, afirmou Janine, é a garantia da criação ao direito à Educação desde o nascimento. O direito à educação, salientou, entendido não apenas como o acesso, mas também a uma educação de qualidade e ao desenvolvimento integral.
 
Em seguida, comentou os Direitos de Aprendizagem inscritos na BNCC, no âmbito da Educação Infantil: Conviver, Brincar, Participar, Explorar, Expressar, Conhecer-se. Para que esses direitos sejam assegurados, foram indicados os Campos de Experiências, que a Educação Infantil deve contemplar: O eu, o outro e o nós; Corpo, gestos e movimentos; Traços, sons, cores e formas; Escuta, fala, pensamento e imaginação; e Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.
 
“Não dá para falar de um Direito de Aprendizagem ou de um Campo de Experiência de forma isolada. Todos estão relacionados”, alertou Janine, que também ressaltou, como Maria Thereza Marcílio já havia feito, o papel essencial do brincar para o desenvolvimento integral da criança.
 
Para ela, a concepção de criança já sinaliza os rumos que a Educação Infantil deve tomar. Nesse sentido, citou a concepção indicada nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Infantil, de 2009: “Sujeito histórico e de direitos, que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura”.
 
Para Janine Schultz, é fundamental que sejam respeitadas as características das diferentes fases da vida da criança, desde o nascimento até os cinco anos de idade. Do mesmo modo, entende que devem ser consideradas as singularidades e a diversidade das crianças, com seus diferentes ritmos e processos de desenvolvimento.
 
O protagonismo é igualmente crucial, destacou. A criança, nessa visão, deve ser sujeito da própria aprendizagem e desenvolvimento. E aprendizagem, por sua vez, considerada como um processo pelo qual a criança se constrói.
 
O que seria então o desenvolvimento integral da criança? Para Janine, a integralidade contempla uma concepção integral e integrada de aprendizagem e desenvolvimento, com a integração das dimensões intelectual e afetiva e a interação da criança com outras crianças e adultos. “As interações e as brincadeiras proporcionam experiências por meio das quais as crianças constroem e se apropriam de conhecimentos”, reiterou.
 
Ela também comentou a relevância do cuidar e do educar como essenciais na Educação Infantil. “Momentos de cuidados são fundamentais para a construção da criança enquanto indivíduo, pois é o momento do bom trato, aquele em que a criança pode ser tratada de forma individual”, observou.
 
Ressaltou, ainda, a importância da relação entre família e escola, da necessidade de efetiva participação das famílias na vida escolar. Janine Schultz, evidenciou, também, a relevância da melhoria da formação dos profissionais para a Educação Infantil. “A Educação Infantil aparece de forma muito tímida nos cursos de pedagogia e formação de professores em geral”, lamentou. Na educação infantil, concluiu, o professor deve ser “um mediador do processo desenvolvido pelas crianças, aquele que cuida e educa ao mesmo tempo”.
 
 
 
 

14/05/18|