Uma a uma as crianças vão respondendo à pergunta da professora, sobre qual planta era aquela, na pequena horta estruturada no centro do espaço da Escola Municipal “Dr.José Roberto Monteiro”, no Assentamento do Engenho, em Arariba de Baixo, zona rural de Cabo de Santo Agostinho: “alfacinha”, “quiabo”, “tomatinho”.
 
Assim as crianças das séries de Educação Infantil da unidade escolar vão tendo desde cedo o contato com a sua realidade e a dos pais, em um assentamento formado desde 1992 e onde vivem cerca de 150 famílias. Esse contexto sociocultural foi levado em conta na reformulação do Projeto Político Pedagógico da unidade escolar (que também recebe alunos do ensino fundamental), no âmbito da evolução do Programa Primeiro a Infância – Educação Infantil como Prioridade.
 
“A escola procurou valorizar a identidade, a história das crianças e suas famílias, na discussão do PPP”, diz Eliane Marques Duarte, supervisora pedagógica da unidade escolar. O diretor da EM “Dr.José Roberto Monteiro”, Izael Santana do Nascimento, nota de sua parte que os valores de uma realidade rural foram considerados na reformulação do PPP da escola.
 
A trajetória de reformulação do PPP da escola do assentamento rural é significativa de como tem sido a implementação do Programa Primeiro a Infância em Cabo de Santo Agostinho. Município com enorme diversidade ambiental e sociocultural, abrangendo paisagens que vão de belas praias a canaviais e agitada zona urbana, Cabo tem mais de 202 mil habitantes em 2016, nas estimativas do IBGE.
 
A gerente de Ensino da Secretaria Municipal de Educação, Benedita Verônica Gomes da Costa, destaca que houve um trabalho conjunto com a gerência de Gestão Democrática para viabilizar a execução do Programa. “Desde o Plano Municipal de Educação, com suas metas decenais, o Programa tem contribuído muito, o que se acentuou no momento de reformulação dos PPP”, afirma a gerente de Ensino. “Nunca mais a construção do PPP será da mesma forma em Cabo de Santo Agostinho, porque o Programa mostrou que é possível fazê-lo de forma participativa”, complementa Bendita Verônica Gomes da Costa.
 
A gerente da Gestão Democrática, Analice Pereira de Souza, lembra que um dos desafios foi como abranger o conjunto de 97 escolas, “cada uma com sua individualidade”. Ela conta que as unidades escolares foram agrupadas e cada grupo acompanhado por uma técnica pedagógica, de modo a viabilizar a ampla participação no processo, inicialmente com o desenho de um documento norteador para a reformulação dos PPP.
 
Como um dos pilares da discussão dos novos PPP em Cabo de Santo Agostinho – assim como nos dois outros municípios parceiros do Fundo Juntos pela Educação – esteve o professor. “É o professor quem garante os direitos das crianças em seu processo educacional, é quem dá importante apoio nessa fase importante da vida”, salienta Cleide Celes, professora e formadora de professores em Educação Infantil em Cabo de Santo Agostinho.
 
“O Programa Primeiro a Infância mostrou que é possível contemplar uma nova agenda na Educação Infantil, descontruindo concepções para gestar o novo”, frisa Clésia Mendonça, uma das técnicas da Secretaria de Educação que acompanharam as escolas. Técnica da mesma Secretaria, Maria do Carmo Costa admite que “foi desafiador convocar as famílias, as comunidades, mas o Programa propiciou novo olhar para a Educação Infantil, que passa a ser mais valorizada diante de outros ciclos educacionais”.
 
Professor na Escola Municipal do assentamento de Arariba de Baixo, formado em Pedagogia da Terra, Edivânio Antônio de Souza aprovou a ampla discussão com a comunidade. “Foi valorizado o coletivo, fundamental em época de individualismo”, sintetiza o educador.