Economista pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Daniel Archer Duque tem dedicado boa parte de seu tempo a investigar sobre os impactos dos investimentos na educação infantil para o desenvolvimento. “Investir na educação infantil é essencial para a redução das desigualdades”, defende Duque, que é pesquisador no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ) e na organização Promundo.
 
Em entrevista ao Fundo Juntos pela Educação, ele comentou o status da educação infantil no Brasil e suas perspectivas. Com gráficos e muitos dados, Daniel Archer Duque entende que o Brasil precisa ainda avançar muito na compreensão sobre a relevância de um investimento maior na educação infantil e sustenta que existem riscos nesse sentido quanto ao futuro.
 
Fundo Juntos pela Educação – Por que você se interessou em pesquisar sobre Educação Infantil, considerando sua formação em Economia? Como tem trabalhado nessa área?
 
Daniel Archer Duque – Dois dos temas mais relevantes para a pesquisa na área econômica são desenvolvimento e desigualdade. Não é de se surpreender que ambos sejam extremamente influenciados pela educação, de modo, portanto, que essa área se mostra como absolutamente focal para a pesquisa econômica. Infelizmente, no Brasil ainda há poucos pesquisadores que perceberam isso, mas no resto do mundo, esse é um dos temas que tem recebido cada vez mais atenção dos economistas.
 
O Instituto de Economia da UFRJ, por ser uma instituição mais focada na economia industrial, e desenvolvimento heterodoxo, não dá muito foco à área de economia da educação, de modo que nunca encontrei um professor pesquisando sobre esse tema. Entrei em contato com essa área a partir do Instituto Brasileiro de Economia, o IBRE-FGV, no qual observei vários grandes economistas, como Samuel Pessoa, Fernando Veloso e Fernando de Holanda Filho, tratando desse tema como prioritário para suas pesquisas, principalmente da educação infantil, dos quais são grandes defensores, e daí comecei a me interessar.
 
No IESP-UERJ, trato de educação superior, principalmente na desigualdade ao acesso por recorte racial. Já no Promundo, trabalho com avaliação de programas educacionais nas escolas, observando diretamente o impacto da educação nos primeiros anos de vida sobre as crianças.
 
Por que o Brasil deveria investir mais em Educação Infantil, como fator fundamental para o desenvolvimento?
 
Daniel Archer Duque – Ainda há uma insuficiência muito grande de atendimento às crianças de 0 a 5 anos, com menos de metade das crianças dessa idade em alguma instituição de educação, principalmente para famílias mais pobres, para as quais essa taxa não chega a 40%.
 

 
No entanto, vale a pena dizer que educação infantil não é, nem deve ser, resumida a creches e pré-escolas. É preciso também investir em orientação parental ainda nos primeiros meses de vida da criança, que são absolutamente cruciais para o desenvolvimento cognitivo das mesmas. Esse é um investimento essencial para o desenvolvimento sustentável, pois a educação promove uma verdadeira revolução na economia de qualquer país. Só nos últimos anos, já se comprovou que, no Brasil, o aumento da população escolarizada foi uma das principais responsáveis pela queda da desigualdade, aumento do salário médio, redução da informalidade, entre outras grandes mudanças que temos observado na nossa sociedade.
 
Ainda, investimentos na primeira infância tendem a ser extremamente eficazes, uma vez que o cérebro das crianças, ainda em desenvolvimento, tem altíssima capacidade de absorção e resposta aos estímulos, tornando seus efeitos extremamente duradouros. E a educação infantil não apenas traz retornos individuais àqueles que a usufruem, mas também a toda a sociedade, ou seja, apresentam externalidades positivas. Pesquisas de diversos economistas mostram que ganhos educacionais básicos levam à redução do crime, maior coesão social e até menor transmissão de doenças infecciosas.
 
Um dos Nobels da Economia, James Heckman, em um de seus trabalhos, traça uma curva de retorno social do investimento por ano de idade, de acordo com uma compilação dos achados das suas pesquisas anteriores. Tal curva é expressa no gráfico abaixo, e mostra como há um retorno exponencialmente maior nos investimentos realizados nos primeiros anos de vida.
 

 
Por que investir em Educação Infantil é importante, especificamente, para a redução das desigualdades?
 
Daniel Archer Duque – Na literatura internacional, há pesquisas documentando o desenvolvimento cognitivo em uma amostra de crianças nos Estados Unidos, nas quais é mostrado que crianças com mães de diferentes níveis educacionais não apresentam diferenças cognitivas ao nascer, mas que começa a surgir depois dos cinco anos de vida. Isso ocorre pela grande desigualdade entre os ambientes sociofamiliares para o desenvolvimento cognitivo das crianças de famílias mais pobres e famílias mais ricas.
 
Por exemplo, uma pesquisa da Universidade de Kansas encontrou que uma diferença média de nada menos do que 30 milhões de palavras escutadas entre crianças de até 3 anos de idade em uma família mais abastada e outra mais vulnerável. Como a formação cognitiva é irreversível, quem cresceu em uma família mais rica terá uma vantagem insuperável em relação a quem cresceu em uma família mais pobre. No Brasil, uma pesquisa recente mostra que, uma vez que uma criança é aleatoriamente colocada em uma creche ou pré-escola, ela apresenta uma redução em média de 1,2 anos de atraso escolar, além de registrar um aumento na proficiência de matemática que corresponde, segundo o autor, a três anos a mais de escolaridade em termos de aprendizagem.
 
Portanto, investir em educação nos iniciais de vida é absolutamente essencial para reduzir a desigualdade, e principalmente aquele considerado pior por qualquer economista ou sociólogo, que é a desigualdade gerada pela “loteria do berço”, que é basicamente a sorte de nascer em uma família mais pobre ou mais rica.
 
Quais riscos que existem no sentido de que o país não invista como deveria, nos próximos anos, em educação infantil?
 
Daniel Archer Duque – Os riscos são muitos e esse erro, como exposto anteriormente, é irreversível. Ainda que o teto de gastos instituído tenha deixado de fora o Fundeb e as transferências aos estados e municípios, o Brasil inteiro está em uma situação fiscal extremamente delicada, e o gasto em educação costuma ser o primeiro a ser crucificado, por dar resultados apenas no longo prazo e representar um aumento permanente nos gastos correntes do governo, uma vez que esse investimento se resume em quase sua totalidade a contratar professores e educadores. Com isso, estaremos contratando para o futuro uma redução do nosso potencial de desenvolvimento econômico e social tal como observamos na última década, além de manter nossa “loteria do berço” tão forte quanto sempre foi.