A educação infantil no Brasil, em termos históricos, sempre foi tratada pelo viés assistencialista. É muito recente a caracterização da educação infantil como um direito de cidadania, parte essencial da educação básica e que deve receber um tratamento técnico e pedagógico. É esta visão que o Programa Primeiro a Infância – educação infantil como prioridade vai ajudar a consolidar, nos três municípios pernambucanos onde está atuando, na opinião de Oneide Ferraz Alves, coordenadora técnica da iniciativa junto à Oficina Municipal, contratada pelo Fundo Juntos pela Educação.
 
Oneide tem uma rica trajetória no campo da educação. É mestre em Educação e tem especialização em Direito Educacional e Políticas Públicas. Foi professora e diretora de escola estadual, supervisora, delegada e dirigente de Ensino da rede estadual paulista. Atuou na Secretaria Municipal de Educação de Peruíbe e, com uma empresa de assessoria e consultoria, trabalha na área educacional junto a municípios, tendo atuado por dois anos em João Pessoa (PB). Na Oficina Municipal a técnica dá aulas e organiza cursos.
 
A sua vivência como diretora de escola foi particularmente intensa. “Podemos dizer que, como diretora, estamos sempre atuando nos limites dos sucessos e alguns fracassos. Mas sempre é uma experiência enriquecedora e que ensina muito”, ela conta.
 
Oneide foi diretora de três escolas em São Vicente, no litoral paulista. Duas mais centrais, a EE “Leopoldo José de Santanta” e EE Professora “Paula de Arruda Penteado”, e também na EE “Margarida Pinho Rodrigues”, localizada na maior favela da cidade, a México 70.
 
Ela diz ter muitas expectativas em relação ao Programa Primeiro a Infância, considerando o “olhar mais aprofundado que a educação infantil está recebendo no Brasil nos últimos anos, a partir da constatação de que é nessa idade que as crianças constroem elementos que vão constitui-las pelo resto da vida”.
 
Desde que a educação infantil foi incluída na educação básica, nota a educadora, houve uma transição muito lenta e apenas agora “a passagem acontece com mais fôlego, no sentido de se olhar as creches e centros de educação infantil com uma preocupação mais técnica, pedagógica, no sentido de se conhecer mais a criança e suas necessidades”.
 
Se houver um bom trabalho na educação infantil, acredita Oneide, “a criança terá muito maior autonomia e segurança para as demais etapas de sua escolarização”. É com essa conceituação que o Programa Primeiro a Infância pode contribuir para que os municípios envolvidos “passem a ter um olhar mais significativo para a educação infantil”, espera a coordenadora técnica da iniciativa.
 
Oneide lembra que, em sintonia com o que estabelece a Meta 1 do Plano Nacional de Educação, que trata da educação infantil, na primeira fase do Programa Primeiro a Infância já houve a contribuição da iniciativa para que os planos municipais de educação de Camaragibe, Cabo de Santo Agostinho e São Lourenço da Mata fossem elaborados com uma atenção maior para a qualidade da educação infantil.
 
Agora, na segunda fase, o fio condutor será a elaboração do Projeto Político Pedagógico pelas escolas de educação infantil nos três municípios. Será uma oportunidade, acredita Oneide, para aprofundar diagnósticos e de construir, de forma participativa, PPPs que reflitam as realidades e necessidades de cada escola, no sentido de qualificação da educação infantil oferecida. “Acredito que é possível fazer algo diferente e novo nesses municípios, que estão demonstrando muita vontade e disposição para trabalhar, apesar de estarem cientes das dificuldades e dos desafios”, assinala.
 
A intenção, completa a coordenadora técnica, é que os PPPs elaborados pelas escolas, de forma participativa e com a contribuição das secretarias municipais de Educação, sejam mais do que documentos, mas instrumentos dinâmicos, refletindo os valores e necessidades das comunidades. “O PPP não pode ser um documento feito porque a legislação pede e que fica na gaveta. É preciso que ele tenha a concepção participativa, envolvendo pais e professores, para que as ações previstas sejam executadas com resultados positivos para os alunos”, acrescenta Oneide Ferraz Alves, que destaca o papel do Fundo Juntos pela Educação em assumir uma iniciativa ousada no campo da educação infantil. “A educação apenas dará um salto no Brasil com a participação da sociedade civil, os governos não dão conta de tudo”, diz ela. O próprio Plano Nacional de Educação, começando pela Meta 1, da Educação Infantil, conclui, sairá do papel com essa atuação conjunta, do Estado e da sociedade.