O Projeto Político Pedagógico (PPP) deve refletir “o clima da escola, a sua realidade e como os diferentes protagonistas, gestores, professores, funcionários, alunos, pais e comunidade, percebem esse clima e essa realidade”. A afirmação é de Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia da Educação da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara, da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
 
Como educadora e pesquisadora, ela atua em vários projetos na Região Metropolitana de Campinas (RMC), alguns deles com escolas de educação infantil. Tem muita experiência, portanto, em temas como a convivência em um ambiente escolar.
 
Para a especialista, o Projeto Político Pedagógico “amarra todas as ações” de uma escola e deve partir de um profundo diagnóstico da realidade dessa unidade escolar. “Apenas podemos transformar o que conhecemos. É preciso então conhecer a realidade da escola, os problemas que ela enfrenta, os desafios que tem pela frente, a infraestrutura existe e a que demanda, assim como os avanços que tem alcançado”, comenta.
 
Esse processo de escuta, diz ela, deve ser totalmente participativo. “Deve ser uma construção coletiva, ouvindo-se todos os atores envolvidos, de modo que o PPP seja de fato assumido pela comunidade escolar”, completa.
 
Na sua opinião, a construção participativa do Projeto Político Pedagógico “deve acontecer de forma concomitante com o trabalho cotidiano, de modo que as questões sejam abordadas no momento em que elas ocorrem, e com isso o PPP fica muito mais vivo e dinâmico, não há o risco dele se tornar apenas um documento formal”.
 
Luciene entende, de fato, que o Projeto Político Pedagógico deve abranger “o clima da escola, como as relações de convivência se manifestam, se existe uma gestão democrática, se a comunidade realmente encontra espaço de participação, pois tudo isso se reflete na forma como os alunos aprendem”.
 
Desafios na educação infantil – Para Luciene, a educação infantil ainda enfrenta muitos desafios no Brasil. Um deles, adverte, é superar o legado do assistencialismo. “Em nosso processo histórico, as creches estiveram ligadas basicamente a organizações filantrópicas, e ainda hoje a dimensão do cuidado é a que prevalece em muitas escolas de educação infantil”, afirma.
 
Outro desafio elencado pela educadora diz respeito à formação dos profissionais que atuam na educação infantil. Ela entende que “muitos momentos do cotidiano, como quando a criança está atirando objetos no chão ou comendo alguma coisa, podem ser excelentes oportunidades para o desenvolvimento dessa criança, mas essas chances são perdidas porque não houve o preparo adequado do profissional”.
 
Luciene acredita que as políticas públicas ainda precisam melhorar muito no âmbito da educação infantil. Ela entende nesse sentido que o Plano Nacional de Educação (PNE) abre novas perspectivas, sobretudo em função do que está previsto na sua Meta 1, dedicada especificamente à educação infantil.
 
Mas é essencial, avisa, a mudança de olhar da sociedade sobre a educação infantil. “Ainda há preconceitos, como o de que a creche é apenas para o filho da mulher que trabalha fora. A educação infantil deve ser vista como um direito e etapa fundamental para o desenvolvimento integral da criança”, completa a educadora.